Aumento de carga laboral, diminuição de ganhos e desmotivação
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| Foto: Reprodução/Correios |
Assim como na ficção que concorreu ao Oscar, os carteiros, no Brasil, encaram situações de conflito e insegurança e andam pelos mais variados climas e localidades. Enquanto no filme tudo faz parte da aventura do herói rumo a mudanças e aprendizados, no contexto real trata-se do dever da profissão. Ao cumprir com os deveres, os funcionários contam com recursos disponibilizados pela empresa e recebem garantias e remuneração em troca. Não foi o cenário que o Humanista encontrou na prática.
Na ECT (Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos) o que se vê é uma desproporcionalidade entre esses direitos e deveres. Os funcionários encontram dificuldades em sua rotina, como falta de ferramentas de trabalho ou atraso na manutenção: “Às vezes não temos nem fita durex para colar as encomendas”, conta uma carteira que trabalha no interior do estado de São Paulo. “Muitas vezes a gente não consegue fazer um serviço de qualidade por falta de estrutura, carro com problema ou quebrado…”, desabafa outro trabalhador, da Bahia.
Isabel (nome fictício atribuído pela reportagem para preservar a identidade da fonte)*, que é carteira, notou ao longo do tempo um aumento na demanda do comércio eletrônico, bem como o crescimento dos municípios, ou seja, a área a ser percorrida pelos carteiros. Por outro lado, há a falta de trabalhadores efetivos: “Estamos trabalhando por três, praticamente. E isso impacta lá no destinatário, que acaba recebendo suas faturas atrasadas, suas encomendas fora do prazo. Não porque os funcionários dos Correios não têm comprometimento ou algo do tipo, mas, sim, porque não temos gente suficiente para dar conta dessa demanda”.
Atualmente, a empresa tem 98.848 funcionários, mas já foram, segundo sindicato, 128 mil. Sérgio*, que também é carteiro, precisa fazer hora extra quase todos os dias, além de ter de trabalhar em muitos domingos e feriados: “Nos últimos anos, isso tornou-se mais evidente, pois a saída de muitos funcionários por PDV (plano de demissão voluntária) contribui ainda mais para as dificuldades”.
Adoecimento físico e mental
Quando Isabel* ingressou nos Correios, em 2006, foi difícil de se adaptar à rotina de trabalho. Pensou em desistir, mas precisava do emprego e continuou. Esteja 40 graus na rua, frio ou chuva, ela cumpre sua função. Porém, o peso das encomendas, com o tempo, a fez adquirir doenças decorrentes da atividade. “Limitações que, inclusive, me impedem há anos de usufruir do meu lazer preferido, que era a prática de esportes.”
Na área operacional e no atendimento, há uma grande pressão em razão do cumprimento de metas. Nas capitais, existem máquinas no setor de operação de triagem. Essa automatização tornou o processo mais rápido, porém, é necessário o trabalho manual para o abastecimento e despache do material recebido para outras unidades. Com isso, aos trabalhadores foi exigido o desempenho e ritmo de uma máquina. Consequência: problemas de saúde. “Eu tive problemas de lesões de esforço repetitivo, tendinites, bursites, doenças ocupacionais…”, conta Vitor*, operador de triagem de um desses setores.
Ele também recorda que, quando entrou, no início dos anos 2000, além da pressão dos gestores por produtividade, sofreu assédio moral em razão de sua orientação sexual. Hoje o preconceito diminuiu, porém, ele conta, ainda existe de forma velada. E o que aconteceu deixou marcas: “Podem passar 20 anos igual passou, mas acaba refletindo na vida da gente. Aquele gestor nem tá mais ali, mas a gente lembra”.
Logo nos primeiros anos na empresa, o funcionário participou de um recrutamento interno para assumir outra vaga, melhor remunerada, e foi aprovado. Na nova função, estudou muito e se especializou em gestão e sistemas dos Correios, viajou pelo país para ministrar aulas e dar palestras, dedicando-se à empresa. Então, precisou parar. O estresse e as noites mal dormidas geraram desgaste físico e mental. Adoeceu e precisou se afastar temporariamente. Nesse meio tempo, uma portaria emitida pela empresa o dispensou da função. Ao retornar, foi direcionado para a atividade inicial e, em consequência da queda salarial, teve problemas financeiros. “Perdi muitos dias e noites estudando, me preparando para ajudar as pessoas a melhorarem o desempenho e o meu desempenho foi pro ralo, porque acabei prejudicando minha saúde. No momento em que tu ficas doente, não serve mais”, ele desabafa.
Outro problema, comum a funcionários que trabalham em grandes centros urbanos, é a insegurança. Após ser vítima de cinco assaltos na agência onde trabalhava, Gustavo* e seus colegas foram transferidos, pois a empresa decidiu fechar aquela unidade. No entanto, o problema estava além do lugar onde ocorreram os crimes e, na outra agência, houveram mais dois assaltos. Chegou a um ponto em que os ladrões já sabiam que Gustavo* era o responsável pelo cofre. Com isso, ele ia trabalhar com receio de abrir a agência e passava o expediente com constante medo do que pudesse acontecer.
A pandemia do Coronavírus
Em razão da pandemia, a defasagem de funcionários, problema que já era uma realidade, se agravou. Além disso, houve um relevante aumento nas compras pela internet neste ano. Parte dos funcionários que até então trabalhavam normalmente afastaram-se por estarem no grupo de risco. Do restante, muitos contraíram Covid-19. João* é carteiro. Toda semana ele e outros colegas eram transferidos de um local para o outro, com o objetivo de ajudarem nos serviços atrasados. Nessa rotina, junto a funcionários de diferentes municípios e agências, com o cuidado apenas básico de álcool gel e máscara, não demorou muito para se contaminar pela doença. Nesse período, em meio a poeira da separação de encomendas, também teve uma crise de rinite alérgica, o que agravou o caso de infecção.
Ele ficou internado por uma semana, em agosto, com baixa capacidade pulmonar e oxigenação. Em razão da dificuldade para respirar, não conseguia dormir bem, tomava injeção na barriga de duas em duas horas e precisou fazer fisioterapia pulmonar. “Me senti muito mal, tive a sensação de que eu ia morrer”, conta. O hospital em que ficou, da Unimed, estava lotado de pacientes com o vírus. Não recebeu Comunicado de Acidente de Trabalho da empresa, e seus colegas continuaram, normalmente, o trabalho na unidade onde ocorreu a contaminação.
Quando o entrevistamos, durante a produção desta reportagem, ele estava bem e já havia retornado ao trabalho. Infelizmente, nem todos os funcionários contaminados pela doença puderam voltar às suas funções. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores dos Correios, houveram mais de 100 óbitos por coronavírus na categoria.
Os trabalhadores, através de seu sindicato, ganharam ação na justiça para que a empresa fornecesse o material necessário para a segurança na pandemia, como máscaras e álcool em gel. “A empresa é muito insensível do ponto de vista de sua direção. Então, a gente, nesse período todo, com todos esses óbitos, solicitou várias reuniões, e ela não quis debater. Ela não abre os números, não rebate. Se a gente tem esse acompanhamento é pelos casos que chegam via sindicato. A gente vai e acaba contabilizando. Já solicitamos via LAI [Lei de Acesso à Informação], eles também não abrem”, diz o secretário geral da Fentect (Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telégrafos e Similares), José Rivaldo.
O sindicato e federações também precisaram entrar com ação judicial para que os empregados que são do grupo de risco do coronavírus pudessem permanecer em suas casas, realizando trabalho remoto. No entanto, esses trabalhadores são constantemente pressionados a voltar para as agências e ruas. Inês está afastada pois tem pressão alta e, também, filhos em idade escolar. Recentemente foi pressionada a voltar ao trabalho presencial. Disseram-lhe que caso não retorne, vão tirar sua gratificação de gerência. Além disso, informaram que era necessário pegar um atestado médico informando aptidão ao trabalho presencial, junto da assinatura de um termo de responsabilidade em relação à Covid-19.
O médico se negou a fazer o atestado, e ela optou por não aceitar a imposição. Ao escolher pela saúde, outras preocupações foram inevitáveis: “A gente pensa na parte financeira, pra quem tem dois filhos, a gratificação ajuda no sustento da família. Fora a preocupação com o que vão fazer quando eu voltar, se vão castigar, se vão mandar pra outra cidade, o que vão fazer”.
Perda de direitos
Os auxílios e benefícios, nas últimas décadas, foram definidores para o bem-estar dos trabalhadores dos Correios e suas famílias. A empresa comumente alegava não ter condições de oferecer aumento salarial, e, em troca, as categorias profissionais negociavam, então, a manutenção ou a ampliação de benefícios. Para os funcionários, os auxílios eram vantajosos, pois ajudavam nas despesas mensais e garantiam assistência em situações específicas. Até o ano de 2019, o plano de saúde incluía os pais do beneficiário (contanto que recebessem até um salário mínimo cada). Sara*, que é atendente na empresa, contou com a ajuda do plano quando sua mãe precisou fazer uma cirurgia no valor de 50 mil reais. Na época, com o benefício, esse valor foi diminuído para 15 mil, e foi descontado da folha de pagamento da funcionária, parcelado, apenas 10% da quantia. Ela pagou 1.500 reais. Se fosse hoje, depois da retirada dos pais do plano, teria de arcar com os 50 mil reais.
Por outro lado, a manutenção dos benefícios era vantagem para a ECT. Outro exemplo: o ticket alimentação, que representa um valor significativo na remuneração da maioria dos trabalhadores – a média salarial de 83,7% do pessoal é de R$ 3.616,47 – não conta para a aposentadoria, FGTS, férias, décimo terceiro, nem incide sobre cálculos rescisórios. “A ECT sempre fez questão de dar um plus, digamos assim, nos benefícios em detrimento de aumento salarial, pois os benefícios não têm o impacto financeiro para a empresa que um aumento real de salário teria”, explica a carteira Isabel.
Porém, em agosto deste ano, a categoria perdeu os direitos conquistados nas últimas décadas. O Acordo Coletivo de Trabalho, que havia sido estendido até final de 2021, foi revogado, com a suspensão de 70 das 79 cláusulas da negociação. “Nós, funcionários dos Correios, vivemos sob uma ilusão de ter um salário razoável diante da grande maioria dos trabalhadores brasileiros que recebem um salário mínimo. E essa ilusão era sustentada pelos benefícios que recebíamos. Perdemos duas vezes: benefícios e salário”, comenta Isabel*.
Demonstração de perdas de benefícios
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| Fonte: Relatório Dieese e ECT |
Demonstração de perdas na remuneração
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| Fonte: Informações de empregado efetivado no último concurso |
Para termos de exemplificação, nos utilizamos dos valores da remuneração anual de um funcionário, efetivado no concurso de 2011. Consideramos apenas dois benefícios relacionados à gratificação de férias – que passou a ser 1/3 da remuneração prevista no mês das férias – e o vale extra, que foi excluído. Esses itens da cláusula são de fácil mensuração sobre o rendimento líquido, uma vez que interferem na renda de todos os funcionários, independentemente do valor do salário recebido ou de condições específicas. Todos perderam, apenas com esses benefícios, em torno de 5 mil reais no valor anual.
Contexto da possível privatização
A partir dos anos 2000, o crescimento econômico do país favoreceu o setor de encomendas: “A empresa passou a ter lucro líquido ano após ano, pois esse contexto favorecia a receita dessa atividade”, diz o economista do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), Clóvis Scherer. Ele explica que isso foi positivo para as contas públicas, uma vez que o governo conseguia cumprir suas metas fiscais a partir do resultado das empresas estatais. No entanto, com a crise econômica, desde 2017 o país passa por uma estagnação, e isso reflete na ECT, que, atualmente, cresce em ritmo lento, o que não favorece a retomada da lucratividade. “Isso, combinado com a necessidade de geração de superávit, acaba fazendo com que a empresa avance todo tipo de medida para reduzir despesas, às custas do seu principal componente de custo que é a mão de obra. Portanto, lançam programas de enxugamento, lançam tentativas de reduzir direitos trabalhistas ou benefícios.”
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| A privatização dos Correios pode intensificar as desigualdades sociais no país. - Foto: Fentect |
“Os Correios vivem da sua capacidade lucrativa e, mesmo assim, ela não foi feita para isso”, diz José Rivaldo, referindo-se ao papel social e à logística através da qual os Correios têm de levar o serviço postal para todos os brasileiros, independentemente de classe social ou localização geográfica. Esta capacidade de cobrir todo o território confere à empresa uma vantagem em relação às concorrentes, e Clovis Scherer vê nisso “o que realmente está em jogo na questão da privatização da empresa. O filé mignon da atividade hoje”.
Dessa forma, a venda da empresa pode prejudicar o desenvolvimento econômico de regiões mais afastadas, de baixa lucratividade. “As empresas privadas olhariam o lucro puro e simples, então, serviços de importância social chegariam a um custo altíssimo”, explica o economista do Dieese. “O lucro dos Correios é dividido com o povo brasileiro, mas, se privatizar, esse lucro irá direto para o bolso de meia dúzia de empresários, que provavelmente levarão esses lucros para fora do Brasil”, pontua a funcionária Isabel*.
Este contexto, somado às fake news e à desinformação, prejudica principalmente os trabalhadores. Isabel* explica que as reclamações da população recaem sobre ela e os colegas, que acabam indo trabalhar desmotivados por saberem que a jornada de entregas ou atendimento será estressante. “Muitas vezes não somos ouvidos e passamos por culpados dessa realidade que não fomos nós que criamos e que nos afeta também.” Houve um tempo em que os trabalhadores consideraram um privilégio trabalhar em uma empresa do tamanho e papel social dos Correios. Hoje, o sentimento é de desvalorização.
*A identidade de todos os trabalhadores citados na matéria foram preservadas, atribuindo a eles nomes fictícios. Conversamos com funcionários de diferentes regiões do país. Por Jaqueline Kunze, UFGRS.




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