Correios: plano de saúde é responsável pelo rombo da estatal

Estatal atribui ao convênio médico parte significativa dos prejuízos acumulados nos últimos dois anos. Da perda total de R$ 4,1 bilhões, R$ 3,4 bilhões, quase 83%, se referem a desembolsos para cobrir os gastos da operadora Postal Saúde

A Postal Saúde, operadora do plano de assistência médica dos empregados dos Correios, está no meio de uma polêmica. De um lado, a estatal atribui ao plano de saúde parte significativa dos prejuízos acumulados nos últimos dois anos. Afirma que, do resultado negativo de R$ 2,1 bilhões de 2015, R$ 1,6 bilhão equivale a despesas com o convênio médico. Além disso, a empresa pública argumenta que, do rombo estimado em R$ 2 bilhões de 2016, R$ 1,8 bilhão se refere a desembolsos para cobrir gastos da operadora. Do outro, os beneficiários reclamam que os problemas são fruto de uma política equivocada de gestão de pessoas e de mudanças na contabilidade da companhia.

Em meio ao fogo cruzado, a atual administração da Postal Saúde, há 10 meses no comando da operadora, tenta reduzir as despesas assistenciais, que, nos últimos 12 meses, chegaram a R$ 1,6 bilhão. O presidente do plano de saúde, Ariovaldo da Câmara, explicou que R$ 116 milhões já foram economizados, nos últimos seis meses, com renegociações de contratos e com a criação de um comitê de sinistralidade para acompanhar pacientes crônicos, de alto custo e hospitalizados. Uma câmara técnica foi criada para discutir com médicos quais órteses, próteses e materiais especiais devem ser comprados.

Mesmo com todos os esforços, reduzir as despesas da operadora é uma tarefa difícil, já que, dos 400 mil beneficiários, 91 mil têm mais de 60 anos e demandam atendimentos médicos periodicamente. A carteira envelhecida é fruto de um acordo coletivo firmado entre os Correios e os trabalhadores. Em troca de não aumentar o salário dos empregados, a estatal garantiu que pais e mães dos beneficiários pudessem ser dependentes no plano de saúde se tivessem renda de até 1,2 salário mínimo. Atualmente, 55.540 pessoas estão nessas condições.

Outra benesse que onera a operadora é o fato de que os empregados não pagam mensalidades, somente uma coparticipação, que se limita a 20% da remuneração em caso de uso do plano de saúde. Com isso, 93% das despesas da Postal Saúde são pagas pelos Correios e apenas 7% são custeadas pelos beneficiários. Operadoras com o mesmo perfil, explicou Câmara, têm um financiamento distinto. Segundo ele, a Geap, dos servidores públicos federais, tem 21% das despesas custeadas pelo governo e 79% por mensalidades e coparticipações. A Cassi, dos empregados do Banco do Brasil, tem 44% dos gastos cobertos pela instituição financeira e 56%, pelos beneficiários.

A generosidade da Postal Saúde não para por aí. Os empregados dos Correios têm direito a plano odontológico e a 200 procedimentos além dos determinados pela Agência Nacional de Saúde Complementar (ANS). Nos últimos 12 meses, 1% dos beneficiários, o equivalente a 4 mil pessoas, foi responsável por 38% do gasto total da operadora, que chegou a R$ 637,2 milhões. Câmara disse que, em outros planos, a proporção chega a 33% das despesas.

Paliativo

Os Correios enviaram aos empregados a proposta de manter o pagamento integral da assistência médica dos empregados. Entretanto, exigem que os demais beneficiários paguem uma mensalidade e coparticipações. E, havendo lucro líquido, 20% seria revertido para custear parte das mensalidades. A proposta foi recusada pelos trabalhadores, que entraram em greve. A paralisação foi encerrada após ficar acertado que o Tribunal Superior do Trabalho (TST) fará a mediação do debate sobre o custeio do plano de saúde.

Enquanto nada é decidido, o presidente da Postal Saúde tem adotado medidas para tentar reduzir custos. O número de empregados foi reduzido em quase 10% e passou de 566 para 512. Seis gerências foram extintas, funções gratificadas, reduzidas, e os salários dos gerentes diminuíram para valores semelhantes aos de empregados dos Correios. Das 28 unidades regionais, 16 foram transferidas para prédios dos Correios, pagando um aluguel que corresponde a 10% do valor de mercado. Outras seis devem ser transferidas até outubro.

Unidades que permanecem alugadas tiveram contratos reajustados. A sede da operadora, em Brasília, teve o aluguel reduzido à metade, de R$ 160 mil, para R$ 80 mil. Um novo estatuto, um código de ética e uma política de consequências foram criados e estão em análise. Além disso, foram implementados sistemas de licitação com pregão eletrônico para contratação de prestadores de serviços, de auditoria interna e de sindicâncias.

A operadora ainda implementou um serviço de vídeochamadas para os beneficiários fazerem aconselhamento remoto. Esse tipo de atendimento tem potencial para reduzir em 30% a ida aos hospitais. Centros foram instalados em unidades dos Correios para fazer trabalho preventivo com empregados que fazem esforço repetitivo. “Vamos continuar melhorando nossos controles”, acrescentou Câmara. (Por Antonio Elias, Correio Braziliense)

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Estatal atribui ao convênio médico parte significativa dos prejuízos acumulados nos últimos dois anos. Da perda total de R$ 4,1 bilhões, R$ 3,4 bilhões, quase 83%, se referem a desembolsos para cobrir os gastos da operadora Postal Saúde
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